Março 19, 2005

Surreal

Surreal é o amor.
Sem diferenças ou alturas,
Nunca um só é vencedor
quando se compartilham as agruras.

Surreal é a alegria.
Gargalhadas ao vento,
nenhum traço de apatia,
o dia está sempre a contento.

Surreal é a amizade.
Sorriso de simpatia,
um adeus cheio de saudade,
e um abraço no fim do dia.

Surreal é a vida.
Cheiro de verde, maresia.
No que de todos é a lida,
do que se precisa é poesia.

Posted by Ronaldo at 09:03 PM | Comments (0)

Violência

Palavras não são o bastante,
para acabar com o silêncio cortante,
da dor que cega,
da vida que se nega.

Palavras não podem retornar,
aquilo que a morte exultou em levar.
Nem o ato insensato, impensado,
que praticou a mão do desesperado.

Palavras não podem tirar o gosto,
amargo, denso como o piche pastoso,
e negro como a escuridão,
da violência que lança o inocente ao chão.

Não há palavras.

Posted by Ronaldo at 09:03 PM | Comments (0)

A Bibliotecária

O relógio marca quase dez horas. Em poucos minutos a biblioteca vai fechar. É sexta-feira e, lá fora, os sons da noite chegam fortes da praça e dos bares ao redor. A bibliotecária está pronta para sair. É seu último dia de trabalho; a hora da aposentadoria chegou e corpo cansado anseia pelo descanso de uma velhice tranqüila. Os olhos já não vêem tão bem como antigamente e as mãos tremem ao bater o carimbo na ficha de empréstimo.

Ela fecha os olhos e, sem serem chamadas, as lembranças de toda um vida junto aos livros retornam à sua mente. Ela se vê jovem, com o brilho no olhar e a memória recente do último ano da escola, pronta para começar em seu novo emprego: uma das funcionárias da maior biblioteca do estado. É a realização de um sonho que acalentara desde pequena, quando ainda na cidadezinha do interior, a gentil senhora que cuidava da biblioteca da escola lhe despertara o gosto pelos livros. Ela soubera então que passaria a vida levando outros a compartilhar do mesmo caminho.

Décadas se passaram e embora as pessoas hoje não mais reverenciem as letras impressas como outrora, muitos ainda sentem no seu coração o anseio por ler, conhecer, viver e contar as infinitas histórias que a humanidade pode criar. E a bibliotecária se sente recompensada por ajudar esses que sentem no peito a mesma paixão que ela.

Pelas janelas da memória chegam as imagens de muitos anos: a luz nos olhos de um criança ao abrir um livro ilustrado, as rugas de concentração na testa de uma jovem procurando pelo livro que lhe garantirá alguns pontos na escola, a gargalhada de um senhor que não pode se conter ao ler uma passagem particularmente engraçada em um romance enquanto escolhia os livros que levaria para casa, o jovem indeciso que ao contemplar a enorme quantidade de volumes que a biblioteca abriga sabe que jamais conseguirá apreender todo o cabedal de conhecimentos e cultura que eles representam e, assim, nem sabe por onde começar. As imagens fluem lhe trazendo um sorriso aos lábios. Lágrimas caem, mas ela se sente feliz. Cumpriu o seu papel com amor, realizando seu sonho e vocação.

Ela abre os olhos. Já passa um pouco das dez. Ela se levanta, pega a sacola com os pertences que recolhera e despede-se do porteiro, um amigo de tantos anos. O adeus aos outros colegas já foi dado. Ela olha para trás por um instante tentando reter na mente uma última imagem da lugar que representa sua vida. Sabe que não vai voltar. Está retornando à sua terra para aproveitar os últimos anos e quer guardar intacta a memória de sua biblioteca. Um último olhar à sua cadeira e ela se vira e parte.

Sabe que amanhã outra pessoa mudará o dia de entrega no carimbo de empréstimo. Mas os livros, esses amigos, nunca a abandonarão.

Posted by Ronaldo at 09:02 PM | Comments (0)

Pôr do Sol

Do sol é o fim do dia.
Laranja ofuscante,
refletido em uma nuvem macia,
um amarelo chamejante.

Redondo, rotundo,
morre no mar,
ou, lá no fim do mundo,
cede espaço ao luar.

Em brasa, de mansinho,
atrás das montanhas vai sumindo,
para retornar amanhã cedinho,
um alegre sol sorrindo.

Posted by Ronaldo at 09:01 PM | Comments (0)

Espera

O tempo foge,
não há permanência.
O universo é o mesmo em um grão de areia,
ou em uma estrela distante.

O que se foi, voltará;
sem semelhanças, sem diferenças.
Só a insana certeza do
despropósito humano é igual.

Mas um único instante,
fugaz como um estrela cadente,
mostra ao longe a esperança
que é certa um dia.

Posted by Ronaldo at 09:00 PM | Comments (0)

A última expressão

Morrer era fácil. Abandonar o mundo velho sem pesar e sem tristeza; a única certeza em toda a sua vida. Medo não havia. Só a expectativa do porvir. Daquilo que valia, a velha chama continuava acesa. As noites perdidas ou ganhas entre notas, tons e dissonantes eram a calma certeza de uma vida bem vivida.

Por trás dos olhos fechados se descortinava sua existência. As pequenas alegrias, as grandes tristezas, os amores, pavores, a beleza e a feiúra que fazem a pintura do ser. E, permeando cada segundo, a suave trilha sonora que marcara cada célula, cada átomo de seu corpo. A dádiva do Pai.

Arrependimentos havia. Os clichês mortais se aplicam, mesmo quando não se quer. No entanto, a convicção maior o acompanhava e ele sabia estar seguro.

Abrindo os olhos, desfez a teia interior de lembranças e firmou a mente do presente, gastando as suas últimas reservas no ato final. Roçou os dedos nas cordas do velho violão que repousava ao seu lado. A última expressão; o agradecimento e entrega ao Criador. A nota cristalina vibrou por um segundo, ressoou no ar tépido e se desfez lentamente. Sorrindo, ele suspirou e se foi.

Posted by Ronaldo at 08:59 PM | Comments (0)

Música

Cristalina, ressonante.
A pura frequência modulada.
Harmonia, melodia;
o ritmo de uma nota dissonante.

A pausa, repentina.
A parada, a descida,
o crescendo batucado
no vibrato do compasso.

A suave calma da explosão
no tremular da corda,
no sopro e no tamborilar da
perfeição contida no caos.

Livre, multiforme,
na clave mais altiva,
a disposição em doze,
da criação maior...
Música.

Posted by Ronaldo at 08:59 PM | Comments (0)

Fim de dia

A chuva cai ruidosamente lá fora. Fim de tarde, hora de ir para casa após um longo dia de trabalho. Os músculos das costas doem por causa da postura errada, e os olhos ardem de tanto olhar para o monitor. E ainda assim, um sentimento de satisfação.

Satisfação por mais um dia vivido. Satisfação pelos amigos, metas cumpridas, metas não cumpridas, papos na hora do café, problemas novos, desafios antigos, paradas na sala do outro para mais uma última piadinha, a conversa na hora do almoço, a saudade de casa, e tudo o que um dia representa.

Saber aproveitar o dia é quase uma arte. Equilibrar o que há de bom, e o que não parece tão bom no momento, mas pode render valiosas lições depois. Parar para olhar à distância e colocar tudo na perspectiva e no foco certos mais uma vez. Contar até dez, cem, mil, o quanto for necessário. E no fim do dia, estar satisfeito.

Graças a Deus por mais um dia.

Posted by Ronaldo at 08:58 PM | Comments (0)

Do amor

Na trajetória da vida,
ele escolheu a alegria:
a borbulhante sensação de
pertencer e ter.

E se o destino não o quis,
ele o fez; acreditando
no maior, ele sonhou.

E quando sono enfim veio,
ele vivera mais do que
a simples existência
dos problemas mortais:
conhecera o amor.

Posted by Ronaldo at 08:57 PM | Comments (0)