Março 19, 2005

A última expressão

Morrer era fácil. Abandonar o mundo velho sem pesar e sem tristeza; a única certeza em toda a sua vida. Medo não havia. Só a expectativa do porvir. Daquilo que valia, a velha chama continuava acesa. As noites perdidas ou ganhas entre notas, tons e dissonantes eram a calma certeza de uma vida bem vivida.

Por trás dos olhos fechados se descortinava sua existência. As pequenas alegrias, as grandes tristezas, os amores, pavores, a beleza e a feiúra que fazem a pintura do ser. E, permeando cada segundo, a suave trilha sonora que marcara cada célula, cada átomo de seu corpo. A dádiva do Pai.

Arrependimentos havia. Os clichês mortais se aplicam, mesmo quando não se quer. No entanto, a convicção maior o acompanhava e ele sabia estar seguro.

Abrindo os olhos, desfez a teia interior de lembranças e firmou a mente do presente, gastando as suas últimas reservas no ato final. Roçou os dedos nas cordas do velho violão que repousava ao seu lado. A última expressão; o agradecimento e entrega ao Criador. A nota cristalina vibrou por um segundo, ressoou no ar tépido e se desfez lentamente. Sorrindo, ele suspirou e se foi.

Posted by Ronaldo at Março 19, 2005 08:59 PM
Comments