O céu cinzento é companheiro da minha solidão. As gotas que caem das nuvens pesadas tamborilam na janela como lembranças de um passado distante, perdido nas brumas. "Adeus", elas dizem, "adeus".
Quisera eu poder expressar a angústia de ser, de viver. A existência ínfima e sem sentido, perdida em um ponto azul na imensidão do negro vazio que há entre as estrelas. Retornar não posso; olhar para trás é impossível. Recuperar o que passou não traria de volta a alegria daqueles dias.
E assim prossigo, incerto, desesperado. Buscando o que não pode ser obtido. Passos penosos na lama. Pés grudados que recusam-se um movimento a mais pois sabem do destino invisível, repleto de sombrios rumores, que aguarda ao final.
Nestas noites claras,
quando a lua vaga nua e pálida
pelo céu sem estrelas,
o meu coração repousa na sua lembrança.
E o destino ainda é tão desconhecido
como nos dias de então,
quando percorríamos os jardins floridos,
alegres na aurora da vida.
Ah! Quisera eu torcer o tempo...
Mas a esperança fenece,
e o sol não pode dar
o calor que meu corpo pede
por não mais lhe encontrar.
Assim, cego e mudo,
prossigo nessa senda
até que um dia
possa ter de volta o que perdi.
Propagando-me digitalmente entre os mundos virtuais,
faço do código a minha morada.
Perco-me entre as bilhões de referências da rede global,
e multiplico-me à velocidade da luz.
Eu sou o byte mutado e a paridade imperfeita;
o dado perdido e a informação incorreta;
a busca sem resultados e as questões sem sentido;
o fim do que não começou.
O link quebrado.
Muitas vezes a vida parece perder a realidade. Dia após dia, tudo se repete em infindáveis cadeias de uma frenética rotina que ameaça tolher o que há de mais precioso na existência. Nesses momentos é preciso recuperar a perspectiva.
Perspectiva para perceber a efemeridade dos acontecimentos sabendo que o que é já foi e será outra vez, mas que cada momento é único e precioso, fruto de um acaso programado. Perspectiva para entender que altos e baixos são partes complementares, e não opostas: para que um vale idílico exista, pelo menos duas montanhas são necessárias. Perspectiva para compreender a medida relativa das coisas e circunstâncias, entendendo como balancear as diferenças.
Sementes são plantadas a cada instante quer se queira, se entenda, se perceba ou não. E, se o velho ditado é certo, o que se colhe é o que se planta. A árvore frondosa que se espera no futuro depende do pequeno grão no agora. O próximo minuto depende do minuto que se vive agora.
Olhar para a frente, por um segundo que seja, pode mostrar que após a próxima curva, quase escondida sob a chuva torrencial, se vê a luz de uma estalagem, onde a cama é seca e o calor da lareira não se rende ao vento cortante.
Incômodo, um balanço arriado,
uma lasca na mão, um caco de vidro no pé.
Subindo pela garganta,
o sangue quente, a alma talhada.
Um grito contido,
a voz que reluta em sair.
Não me enxerga?
Não me vê?
Vou berrar pelos cantos da terra,
aquilo que só eu posso perceber.
Se ninguém mais entender,
a culpa é de quem?
Incompleto, inconsistente.
Imperfeito por desenho.
Esse eu rasgado e apagado,
Existente e consciente,
Tão presente e tão distante.
Em uma tela vazia, pintamos a nossa história;
Em um quadro-negro imaculado, traçamos a giz
a nossa consciência mortal;
No barro mole das idéias, moldamos a
verdade e a confusão dos sentimentos
que nos esgarçam, retorcem, refazem.
Como calar a voz que insiste em gritar?
Como parar a fonte que jorra?
Como apagar o fogo que arde?
se tal ato não fosse a morte em sua
face mais vil?